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sábado, 29 de dezembro de 2007

Trecho do livro O Enigma do Quatro

Trecho do livro O Enigma do Quatro,
de Ian Caldwell e Dustin Thomason

PRÓLOGO

Acho que, como muitos de nós, meu pai passou toda a sua vida reunindo fragmentos de uma história que nunca compreenderia. Essa história começou quase cinco séculos antes de eu ir para a universidade, e terminou muito após a sua morte. Em novembro de 1497, dois mensageiros cavalgaram, certa noite, das sombras do Vaticano até uma igreja chamada San Lorenzo, fora dos muros da cidade de Roma. O que aconteceu naquela noite mudou seus destinos, e meu pai acreditava que poderia mudar o seu também.

Nunca coloquei muita fé em suas crenças. Um filho é a promessa que o tempo faz a um homem, a garantia que cada pai recebe de que tudo quanto considera precioso será algum dia visto como tolo, e que a pessoa que mais ama no mundo o interpretará mal.
Mas meu pai, um estudioso da Renascença, nunca se assustou com a possibilidade de renascimento. Ele contou com tanta freqüência a história dos dois mensageiros que jamais pude esquecê-la, por mais que tentasse. Ele sentia que nela havia uma lição, uma verdade que acabaria por nos atrair.

Os mensageiros haviam sido enviados a San Lorenzo para entregar uma carta a um nobre, sendo advertidos para não abri-la sob pena de morte. A carta estava lacrada quatro vezes com cera preta, e supostamente continha um segredo que o meu pai levaria três décadas tentando descobrir. Mas a escuridão havia caído sobre Roma naqueles dias, sua glória tinha surgido e desaparecido e ainda não havia retornado. Um céu estrelado ainda estava pintado no teto da Capela Sistina, e chuvas apocalípticas inundaram o rio Tibre, em cujas margens apareceu, segundo reclamações de velhas viúvas, um monstro com corpo de mulher e cabeça de burro. Os dois ávidos cavaleiros, Rodrigo e Donato, não prestaram atenção ao aviso de seu senhor. Eles aqueceram os lacres de cera com uma vela e abriram a carta para conhecer seu conteúdo. Antes de partir para San Lorenzo, tornaram a lacrar a carta de maneira impecável, copiando o sinete do nobre com tanto cuidado que a adulteração ficava impossível de ser detectada. Se seu mestre não fosse um homem extremamente sábio, os dois mensageiros certamente teriam sobrevivido.

Porque não seria o lacre a arruinar Rodrigo e Donato e sim, a cera preta onde os lacres haviam sido pressionados. Quando chegaram a San Lorenzo, os mensageiros foram recebidos por um maçom que sabia o que havia na cera: um extrato de uma erva venenosa chamada erva-moura mortal, que, quando aplicada aos olhos, dilata a pupila. Hoje o composto é empregado na medicina, mas naqueles tempos era utilizado pelas mulheres italianas como cosmético, uma vez que pupilas dilatadas eram tidas como sinal de beleza. Foi essa prática que deu à planta seu outro nome: "mulher bonita" ou beladona. Durante o tempo em que Rodrigo e Donato ficaram a derreter cada lacre, a fumaça da cera ardente aderiu-lhes aos olhos. Quando chegaram a San Lorenzo, o maçom os conduziu até um candelabro próximo ao altar. E como suas pupilas não se contraíram, ele soube o que haviam feito. E embora os homens se esforçassem para reconhecê-lo com seus olhos desfocados, o maçom fez como lhe havia sido dito: pegou sua espada e os decapitou.

Era um teste de confiança, tinha dito seu senhor, e os mensageiros haviam falhado. O que aconteceu com Rodrigo e Donato, meu pai só soube por meio de um documento que descobriu pouco antes de morrer. O maçom cobriu os corpos dos homens e os arrastou para fora da igreja, absorvendo seu sangue com tecido grosseiro de algodão e trapos. Colocou as cabeças em duas sacolas, uma de cada lado da sela de seu cavalo de montaria; os corpos, ele os amarrou no dorso dos cavalos dos dois mensageiros, e em seguida prendeu os animais a reboque do seu próprio cavalo. Encontrou a carta no bolso de Donato e queimou-a, porque era uma fraude e não havia destinatário real a quem entregá-la. Então, antes de partir, curvou-se em penitência diante da igreja, horrorizado com o pecado que havia cometido em nome de seu senhor. Aos seus olhos, as seis colunas de San Lorenzo formavam dentes negros por causa dos vãos entre elas e o simplório maçom admitiu que tremeu quando viu isso, porque em criança ele ficou sabendo, no colo das viúvas, como o poeta Dante tinha visto o inferno e como a punição do maior dos pecadores foi a de ser mastigado para todo o sempre pelas mandíbulas de lo 'mperador del doloroso regno.

É possível que o velho São Lourenço, de sua tumba, ao ver o sangue nas mãos do pobre homem, tenha arregalado os olhos e, por fim, o tenha perdoado. E pode ser que não houvesse perdão a ser dado e, como os santos e mártires de hoje, Lourenço tenha permanecido impenetravelmente silencioso. Naquela mesma noite, mais tarde, o maçom, seguindo as ordens de seu senhor, levou os corpos de Rodrigo e de Donato a um açougueiro. É melhor não adivinhar o destino de suas carcaças. Seus restos foram espalhados pelas ruas e recolhidos pelas carroças de lixo, espero, ou devorados por cães antes que pudessem ser assados como recheio de torta.

Mas o açougueiro deu outro destino às duas cabeças dos homens. Um padeiro que vivia na cidade, um homem com um toque do demônio em si, levou as cabeças e as colocou em seu próprio forno, onde as deixou durante a noite. As viúvas do lugar tinham o costume de emprestar o forno do padeiro, ao anoitecer, enquanto as brasas do dia ainda estavam quentes; naquela ocasião, quando lá chegaram, as mulheres começaram a gritar e quase desmaiaram diante da visão grotesca que as aguardava.

À primeira vista este parece ser um destino vulgar, ser usado como meio de pregar uma peça em mulheres idosas. Mas imagino que Rodrigo e Donato ficaram muito mais famosos morrendo dessa maneira do que se tivessem permanecido vivos. Porque as viúvas, em todas as civilizações, são as mantenedoras da memória, e as que encontraram as cabeças no forno do padeiro certamente nunca esquecerão o acontecido. Mesmo quando o padeiro confessou o que havia feito, as viúvas devem ter continuado a contar a história de sua descoberta para as crianças de Roma, as quais, durante toda uma geração, se recordaram do conto das cabeças milagrosas tão vividamente quanto do monstro expelido pelas enchentes do Tibre.

E, embora a história dos dois mensageiros fosse eventualmente esquecida, uma única coisa era certa. O maçom executou seu trabalho a contento. O segredo de seu senhor, qualquer que fosse, jamais deixou San Lorenzo. Na manhã seguinte ao assassinato de Rodrigo e Donato, quando o lixeiro ajuntou lixo e vísceras em seu carrinho de mão, pouco se soube sobre a morte de dois homens. O lento ciclo que avança da beleza para o declínio e de novo para a beleza prosseguiu e, como os dentes da serpente que Cadmus semeou, o sangue do mal regou a terra romana e provocou o Renascimento. Quinhentos anos decorreram antes que alguém descobrisse a verdade. Quando os cinco séculos se passaram, e a morte encontrou um novo par de mensageiros, eu estava terminando o meu último ano na universidade de Princeton.

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